Curitiba nos anos 1920

 

Trecho da entrevista de Lauro Grein Filho na coleção de livros “Memória Paranaense”. Ele foi médico, escritor e membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores. Em 1967, foi escolhido presidente da Cruz Vermelha do Paraná.  


José Wille – Em Curitiba, o senhor chegou em 1926 e foi para a escola de dona Carola, como o senhor conta em um dos seus livros. Como funcionava esta escola na região central de Curitiba naquela época? 

Lauro Grein Filho – A escola de dona Carola era uma escola particular, que preparava os alunos para o exame de admissão no ginásio. Entrei para a escola da dona Carola aos seis anos de idade. Morávamos perto, na rua Dr. Pedrosa, número 106. Era perto da praça Rui Barbosa, que era um recanto tranquilo de Curitiba naquela época. E a escola era na André de Barros, que, naquele tempo, chamava-se Misericórdia. Era uma rua muito bonita, com um canteiro mediano de plátanos gigantescos. Era muito aconchegante aquela rua. E a escola de dona Carola ficava entre a Muricy e a Marechal Floriano. Então, era um trajeto muito agradável. Do lado direito, havia a Igreja do Bom Jesus e o Hospital de Caridade e, do lado esquerdo, a Praça Rui Barbosa, que era um imenso largo de terra batida. Mas era muito interessante e muito movimentada, porque, tendo o quartel do 15º Batalhão de Caçadores na frente, era utilizada para exercícios de ordem unida e de educação física e, principalmente, para os desfiles com a banda. 

José Wille – Era o local também onde se instalava o circo quando chegava a Curitiba.

Lauro Grein Filho – Sim! Os circos Queirolo e Stevanovich se instalavam ali, mas num local da praça diferente, mais próximo de onde ficava o Colégio Iguaçu, ali na rua 24 de Maio. E, na parte mais distante, ela servia também para os jogos de futebol, principalmente dos meninos do Asilo São Luis, que ali se localizava.   

José Wille – Era uma pequena escola, a da dona Carola, na década de 20. Que impressões o senhor guarda?  

Lauro Grein Filho – Dona Carola era uma criatura muito bondosa. Era tida como uma professora muito formosa, muito eficiente na época, mas havia o castigo físico. Sim, ela dava reguadas – reguadas generosas, que não doíam, não machucavam, mas elas tinham um grande efeito moral. E a dona Carola usava as reguadas sem parcimônia. Batia mesmo, quando havia necessidade. E um fato interessante era quando as réguas de dona Carola eram oferecidas a ela pelos próprios alunos. Havia uma serraria ali na Dr. Muricy e os alunos iam lá, pegavam aqueles pedaços de madeira, verdadeiras réguas, e entregavam para a dona Carola, instrumento com o qual eles iam ser punidos.  

José Wille – Curitiba era uma pequena cidade. 

Lauro Grein Filho – Era uma pequena cidade, em torno de 100 mil habitantes. Eu diria que Curitiba, no sentido leste/oeste, começava na Ubaldino do Amaral e terminava no Hospital Militar. Esse era o trajeto dos ônibus da Companhia Força e Luz, aqueles ônibus amarelos, que realizavam esse percurso em mais ou menos 20 minutos, com espera de 10 minutos lá no ponto inicial. Eles vinham, desciam a rua XV, contornavam a Praça Osório e subiam a Vicente Machado até o Hospital Militar. E no outro sentido, o norte/sul, podemos dizer que Curitiba ia da Manoel Ribas, na altura da Praça João Cândido, onde fica a Telepar, até a rua Ivaí, que hoje é a rua Getúlio Vargas. Em qualquer sentido, Curitiba tinha uma extensão mais ou menos de três quilômetros e podíamos fazer esse trajeto em uma hora. Uma hora em cada sentido.  

José Wille – Em vários livros, o senhor cita a rua XV.  

Lauro Grein Filho – Acho que a rua XV era a única rua de Curitiba, porque ali tudo acontecia. Ali estavam localizados os cinemas. Na avenida Luis Xavier, que se pode ver  no início da rua XV, estava o Cine Palácio e o Cine Avenida. Do outro lado, estava o Odeon e o Ópera. Em seguida, do lado direito, estava o Broadway. Na outra quadra, em frente à Associação Médica, que lá funcionava, estava o Cine Imperial, que foi inaugurado com um filme do José Mojica, um ator mexicano. Esse filme foi “O Capitão Aventureiro”.   

José Wille – O cinema, naquele período, era bastante importante como ponto de encontro da cidade e de diversão… 

Lauro Grein Filho – Sim, o cinema era muito importante. Inclusive as sessões de domingo do Cine Avenida eram altos acontecimentos sociais. Ali reunia-se toda a elite curitibana. Realmente, as sessões do Cine Avenida aos domingos eram o acontecimento curitibano naquelas décadas em que Curitiba era aconchegante, tranquila e bela. 

José Wille – Na rua XV, já estavam os engraxates, no primeiro ponto de encontro de Curitiba?  

Lauro Grein Filho – Existiam várias charutarias e engraxatarias. Elas se combinavam. E havia um hábito de todas as pessoas irem à rua XV aos domingos para engraxar os sapatos. Havia engraxates mais competentes e mais caprichosos que os outros. A engraxada do sapato custava trezentos réis, mas geralmente a gente dava uma gorjeta. E os engraxates se comunicavam assim: “jolucentão” queria dizer que aquele freguês dava quatrocentos réis em vez de trezentos; “jolareco”, que dava quinhentos réis; e se fosse “julete”, ele dava mil réis e o capricho era maior.  

José Wille – O senhor também dedica um capítulo de um dos seus livros à Praça Osório. 

Lauro Grein Filho – Depois de morar na rua Dr. Pedrosa, morei na rua Ermelino de Leão, 127. E eu lembro muito dessa nossa mudança, que ocorreu em 31 de agosto de 1928, porque foi a maior nevasca que houve em Curitiba. E a Praça Osório, pela sua vizinhança, foi a minha praça de menino. Era ampla como é hoje, com aquele mesmo repuxo e o coreto, que foi destruído. Era uma grande praça de Curitiba, tanto que nela morou durante certo tempo, quando esteve em Curitiba, o professor César Perneta, a maior figura médica do estado, sem dúvida alguma. Depois de certo período em Curitiba, transferiu-se para o Rio de Janeiro e granjeou uma série de títulos, porque era muito estudioso, muito competente, e foi um verdadeiro nome da medicina nacional. Ao retornar a Curitiba, eu, visitando-o, perguntei-lhe “Então, o senhor voltou para matar as saudades de Curitiba?”. E ele disse “Não tive oportunidade de matar saudade alguma, porque a Curitiba do meu tempo não existe mais. Ela é completamente diferente. Não vejo uma paisagem que me dê reminiscências daquele tempo”. O professor Perneta morava na Praça Osório, que era muito diferente hoje da daquele tempo, a década de 30. Hoje, ela é uma área perigosa da cidade, agressiva, de assaltos, de trombadinhas que a frequentam, principalmente à noite, tornando-a um setor perigoso da cidade. 

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