O dia 31 de março de 1964 no relato de Emílio Gomes

O ex-governador do Paraná, Emílio Gomes, era deputado federal na época da tomada do poder pelos militares, em 1964. Em uma entrevista gravada em 1998 para o Projeto Memória Paranaense original, ele contou como foi aquele dia em Brasília.

Emílio Gomes – Aquele dia foi bastante agitado. Eu fazia parte da administração da mesa da Câmara dos Deputados e fomos convocados a comparecer ao Congresso no horário fora da reunião normal. E o objetivo era ter o maior número possível de deputados de nossa ala comparecendo na sessão que teria lugar mais à noite.

José Wille– Em que partido o senhor estava na época?

Emílio Gomes – Eu estava no Partido Democrático Cristão.

José Wille – A mobilização era em que sentido?

Emílio Gomes – No sentido de que os correligionários mais ligados a nossa ala formassem um grande bloco dentro do plenário do Congresso, porque a sessão seria do Congresso Nacional, convocado pelo então presidente do Congresso, o senador Áureo de Moura Andrade.

José Wille – A notícia da mobilização militar – como chegou até o senhor?

Emílio Gomes – Fomos convocados a chamar os colegas partidários para comparecer em massa ao Congresso. Eu não imaginava que o desfecho fosse aquele. Eu acreditava que fôssemos tomar outra posição. Quando o presidente abriu a sessão, disse “Comunico ao Plenário que o senhor presidente da República, João Goulart, afastou-se do país sem o devido licenciamento do Congresso Nacional, motivo que o coloca impossibilitado de continuar a presidir essa nação. Assim sendo, declaro vaga a presidência da República e convoco os senhores deputados a comparecerem ao Palácio Alvorada para a posse do substituto legal, o presidente da Câmara dos Deputados, o deputado Ranieri Mazzili”. E deu por encerrada a sessão. Esse foi um momento em que todo o Congresso foi tomado de surpresa, naturalmente. Todos avançaram para a mesa e o senador Áureo de Moura Andrade foi aconselhado a sair por uma porta atrás da mesa, que ficava no alto. Ele se negou e saiu pela frente, enfrentando, pois tinha uma personalidade muito grande. Encarou todo mundo, saiu e nada ocorreu contra ele.

José Wille – Mas os deputados já tinham a noção da mobilização militar, do tamanho dessa mobilização pelo país?

Emílio Gomes – Alguns tinham, os mais chegados tinham. Eu não tinha conhecimento, então.

José Wille – Qual era a sua preocupação naquele momento?

Emílio Gomes – A minha preocupação era que se mantivesse o clima da democracia. Mais tarde, comuniquei minha família – “Olha, possivelmente nós tenhamos que encerrar aqui nossa presença em Brasília. Vamos nos dar por felizes, por satisfeitos e vamos ter que recomeçar tudo”.

José Wille – O que os deputados pensaram em fazer naquele momento, quando não existia a consciência do que aconteceria politicamente com o Brasil?

Emílio Gomes – Os deputados foram convocados pelo presidente do Congresso Nacional a comparecer ao Palácio do Planalto, para a posse de Ranieri Mazzili. A Constituição prevê que, na falta ou impedimento do presidente ou vice-presidente, os substitui o presidente da Câmara dos Deputados, que, em 30 dias, providenciará a eleição do substituto legal, por eleição indireta do Congresso Nacional. E o Ranieri, então, assumiu na qualidade de substituto legal constitucional do presidente. Dirigimo-nos aos corredores do Congresso e, com a preocupação das possíveis reações do poder armado, atravessamos os jardins e a Avenida da Esplanada dos Ministérios até o Palácio.

José Wille – Os deputados chegaram a se armar?

Emílio Gomes – Eu mesmo tinha um revólver em punho, recém-comprado. A preocupação era com qualquer reação que fosse, porque íamos assistir a um ato de posse de um presidente que não era o da facção recém-deposta.

José Wille – Chegavam a Brasília com exatidão as notícias sobre a mobilização militar no Brasil?

Emílio Gomes – Só posteriormente chegaram as notícias – de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e do Paraná também. A preocupação que havia com a posição dos líderes regionais – Magalhães Pinto apoia ou não apoia? Como está Ney Braga no Paraná? E no Rio Grande do Sul, com o líder populista Brizola a conclamar o povo a tomar as armas, a manter o presidente Goulart?

José Wille – E depois dessa caminhada para o Palácio?

Emílio Gomes – Ao tentar descer a rampa que leva à garagem do Palácio do Planalto, fomos impedidos por uma sentinela em posição de tiro com uma metralhadora. Mas o deputado Costa Cavalcanti bradou “Não atire! Chame seu oficial do dia!”. E a sentinela, ouvindo uma voz de comando que lhe era familiar como militar, chamou o oficial do dia, com quem dialogamos. Então, descemos a rampa e tentamos subir no elevador, mas os elevadores estavam todos bloqueados. Posteriormente, vimos que, antes de o Palácio ser abandonado, haviam sido colocadas cadeiras, impedindo que as portas se fechassem e, consequentemente, imobilizando os elevadores. Fomos até o quarto andar, onde ainda estava o chefe da Casa Militar do João Goulart, pois nós não conhecíamos o Palácio. Depois, descemos até o terceiro andar, que era o gabinete de despacho do presidente da República, e lá já estavam o Áureo de Moura Andrade, presidente do Congresso, o Afonso Celso, vice-presidente da Câmara, e outros líderes de vários partidos de apoiamento da UDN, do PSD, da situação de Ranieri Mazzili – quer dizer, contra o João Goulart. Quando questionado por Afonso Celso se não deveríamos proceder à posse imediata do Mazzili, o senador Áureo de Moura Andrade disse “Vamos aguardar a vinda do chefe da Casa Militar e do presidente do Supremo Tribunal para legalização da posse do presidente”. E aguardamos. Nessa ocasião, Afonso Celso falou baixo no meu ouvido “Está armado? Porque o chefe da Casa Militar diz que vem depois, mas vem para prender todo mundo”. Mas foi um engano total. Nós estávamos, inclusive, bloqueando a porta para evitar que alguém chegasse ali. E quem chegou foi o chefe da Casa Militar do futuro governo do Ranieri Mazzili. Foi tranquilo. Passamos a madrugada toda montando guarda no gabinete do presidente, até que, no raiar do dia, começaram a chegar as tropas para montar guarda e, ainda assim, não sabíamos se eram a favor ou contra.

José Wille – Até esse momento não era visível a presença militar, ostensivamente, nas ruas de Brasília?

Emílio Gomes – Não, não era. Não se notou nada quando atravessamos o espaço entre a Câmara dos Deputados, passando através até do anexo do Senado. Nos jardins do Congresso, só tinha militar da guarda do Palácio.

José Wille – Na madrugada do dia seguinte, Brasília começou a ser tomada pelos militares, que chegavam para ocupar a capital?

Emílio Gomes – Essa movimentação me fez recordar um fato curioso: quando dirigíamos a Câmara dos Deputados, naquele período conturbado, na Estação Rodoviária de Brasília sempre se reuniam uns populares, que, lá de cima, jogavam pedras e paus quando passávamos de carro. Havia um movimento. Todos, afinal de contas, estavam contra essa situação que tentava se impor. Na posse do Castelo Branco, já eleito por via indireta, o novo presidente subiu ao Parlatório do Palácio do Planalto e as tropas, em frente ao Palácio, desfilavam, mas a multidão em frente ao Supremo Tribunal, que esteve 2, 3 dias, uma semana nos atirando pedra, estava lá aplaudindo o presidente que foi eleito. Qual foi o milagre? O mesmo povo que ontem atirava pedra hoje aplaudia!

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