Saul Raiz e a derrota para José Richa em 1982

Em uma entrevista ao programa “Memória Paranense” na TV, em 1997, o ex-prefeito de Curitiba, Saul Raiz, analisou a eleição de 82 para o governo do Paraná. 

 

José Wille – Em 1981, novamente houve o convite para voltar ao governo do estado como secretário. Ney Braga já acenava com a possibilidade que o senhor seria o nome para a sucessão no governo do estado?
 Saul Raiz – Sempre se falou nisso. E eu vim pensando nisso também e, naturalmente, surgiu essa oportunidade. Só que eu representava a Revolução. Foi uma campanha muito difícil. Eu sempre conto que o Richa, no começo do governo Ney Braga, era um grande amigo meu, mas depois nos separamos e fomos para partidos diferentes. E o Richa acabou sendo o concorrente que ganhou a eleição. Eu sempre digo que trabalhei muito no Boqueirão. Lá era um brejo nesse tempo, tudo inundava e não tinha escola. Fiz um trabalho enorme no Boqueirão, eu era conhecido. Pois eu perdi para o Richa no Boqueirão, que não sabia nem quem ele era. Por quê? Porque eu representava a Revolução. Sempre olhavam para mim e me achavam parecido com o Delfim Neto, com o Figueiredo, porque eu representava aquilo que queriam mudar. Tanto é verdade que não foi só aqui que nós perdemos. A Revolução perdeu em todo o Brasil, praticamente só deixou de perder em algumas cidades do Norte.
 José Wille – O senhor acha que existia uma conjuntura política nacional, um momento de mudança na intenção do voto do eleitor, porque o PMDB já vinha crescendo e era difícil, naquele momento, vencer a eleição?
 Saul Raiz – O PMDB mesmo tem essa consideração. Foi a grande mudança, quando o PMDB ganhou praticamente todas as eleições do Brasil.   
José Wille – A sua participação dentro da Secretaria de Desenvolvimento, que o senhor pegou ainda no final do segundo governo do Ney Braga… Existe a comparação mostrando que o segundo governo Ney Braga fica longe do primeiro, com menor número de realizações.
Saul Raiz – Eu digo que é uma realidade, porque o primeiro governo Ney Braga pegou um Paraná que não tinha nada, e nós mudamos o Paraná. O Ney Braga conseguiu mudar o Paraná, quer dizer, quando se analisa o Paraná, deve-se pensar no Paraná antes e depois do Ney Braga. E o segundo governo já tinha todas essas enormes dificuldades políticas que estavam acontecendo, todo esse final de governo militar.
José Wille – A campanha eleitoral difícil, por causa das acusações que o senhor sofreu – lembrando o caso citado do Tribunal de Contas… Esse foi o momento de deixar de pensar em política? Houve uma desilusão com a política?
Saul Raiz – Não desilusão. Foi uma compreensão de que eu tinha cumprido o meu papel. Porque há uma grande diferença de quem faz política como eu faço, porque gosto da minha cidade, do meu estado, e sinto que tenho o que dar, mas não sou profissionalmente político. Quando terminam os meus 4 anos, eu vou para o escritório e vou ganhar 20 vezes mais do que eu ganhava. Então, a minha vida é outra, é administrativa. Só que quando eu sou convidado e acenam com essa obrigação de abdicar de algumas facilidades da vida particular, eu venho. Mas eu não sou profissional de carreira de política. Não tenho essa necessidade de continuidade. Quando alguém do Legislativo, por exemplo, está há 4 anos legislando, já tem que estar pensando como vai fazer para ganhar a próxima eleição. É a sobrevivência do político. Não é o meu caso, pois, quando saía, tinha um cargo à minha disposição.

 

 

 

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