Porque Affonso Camargo não foi governador do Paraná nos anos 1960

O ex-deputado federal, Affonso Camargo Neto, morreu após perder expressão na política. Nessa entrevista, gravada em 1997, Affonso conta porque não foi o candidato de Ney Braga na sucessão em 1965.

 

  José Wille – O senhor tinha um papel muito importante na articulação política do governo Ney Braga. Foi secretário de Justiça e era visto por muita gente como o sucessor natural de Ney Braga para ser candidato ao governo quando terminasse o período dele. Mas surgiu e cresceu o nome de Paulo Pimentel.
 Affonso Camargo – Eu realmente fui o homem de confiança do Ney Braga, todo mundo sabe disso. Ele tinha outros companheiros, mas eu estava bem perto, tanto é que eu fui secretário, exerci a Secretaria Política por duas vezes. Entre uma e outra que eu exerci, criamos a CODEPAR, e que fique registrado, foi a primeira companhia de desenvolvimento de governo estadual que se criou no país – um exemplo para outras. Depois, transformou-se no BADEP, que agora foi extinto, e já se pensa novamente numa agência de desenvolvimento, como foi a CODEPAR. A história se repete… Mas o Ney, evidentemente, à medida que as coisas avançavam, tinha que sugerir a sucessão, tinha que ter candidatos. Eu, na verdade, não pensava nisso. Se pensasse, diria para você agora, não há nenhum motivo para esconder qualquer coisa, mas eu não estava pensando nisso. Não era, claro, a minha vocação a candidatura. Eu tinha sempre mais aquela predileção de ser assessor e ajudar a campanha dos outros. Mas o Paulo – e não vai nenhuma crítica a ele – naturalmente vislumbrou a possibilidade de ser governador do estado do Paraná. E começou a se projetar, comprou jornal, fundou e organizou uma televisão, começou a fazer uma política agressiva no interior, de fomento à pecuária. Tudo isso fez o nome dele crescer.
 José Wille – Ficou muito claro, já no começo do governo, que ele tinha essa obstinação desde bastante jovem, pouco mais de 30 anos, e que se articulava para isso, até com a compra desses jornais, que eram importantes em Curitiba, o “Estado do Paraná” e a “Tribuna”.
 Affonso Camargo – É, eu via assim… nenhum demérito dele, acho que essa ambição é legítima. É até importante que as pessoas queiram ser. E o que houve no meio do caminho é que o Paulo não conseguiu sensibilizar o PDC, que era o meu partido, e surgiu candidato pelo PTN, mas apoiado pela UDN. E eu fazia muita política partidária, trabalhava muito para fortalecer a base partidária. O PDC era um partido que procurava se colocar numa posição ideológica de centro-esquerda – nós tínhamos o Eduardo Frei no Chile, tinha o PDC italiano também, havia o surgimento dessas ideologias novas – e o pessoal achou que eu deveria ser o candidato do partido. Então, fui, realmente, empurrado para uma candidatura. E como eu não podia fugir disso, acabou tudo resultando numa grande disputa convencional, de uma convenção – que todo mundo sabe – foi a maior e a melhor e mais disputada convenção que houve na história do Paraná até hoje, lá no Guaírão, com o teatro repleto… E até, dias atrás, conversávamos sobre isso com o Nilton Puppi, prefeito de Campo Largo, que é daquela época também, e estávamos analisando como é que foi. De um lado, o Ney Braga, que era o governador do PDC, apoiando Paulo Pimentel, e do outro, eu, presidente do partido, sendo candidato. E o genro do Ney, Oscar Alves, apoiando a minha candidatura, e o Richa também apoiando a minha candidatura. Foi um negócio muito complicado. Mas, no final, abriram as urnas e o Paulo ganhou – fez 838 votos, quer dizer, o Ney ganhou a convenção para o Paulo. E eu fiz 781 votos. Eles não imaginaram que eu fosse fazer tanta votação, mas o Paulo acabou sendo o candidato do meu partido.
 José Wille – O senhor julga que talvez o Ney tenha optado pela candidatura de Paulo Pimentel vendo nele um nome que tinha mais viabilidade de vencer Bento Munhoz, de quem ele estava afastado no momento e que o havia lançado, mas que o Ney precisava derrotar naquele momento?
 Affonso Camargo – Creio que sim. Ney optou por aquele que ele achava que tinha mais chance de ganhar. Foi uma decisão pragmática, que eu respeitei, tanto que na política, às vezes, a gente se afasta um pouco, se aproxima, mas eu não tenho inimigo, não tenho adversário, me dou muito bem com o Ney, visitei há pouco tempo o Paulo Pimentel, me dou com o Aníbal Cury. Eu não tenho inimigo em política, me dou bem com todo mundo.

 

 

 

 

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