Uma visão crítica sobre Ney Braga

 Interessado nas origens do estado, com muitos livros publicados, o general Luiz Carlos Pereira Tourinho registrou e participou da história paranaense. Engenheiro de formação, assumiu o Departamento de Estradas de Rodagem, nos anos 1950, com a missão de integrar o Paraná. Leia o trecho da entrevista gravada em janeiro de 1998 na série Memória Paranaense. Ele mostra uma visão crítica sobre Ney Braga.
 José Wille – O que definiu a eleição de Ney Braga em 1960 para o governo?  
Luiz Carlos Pereira Tourinho – Foi o Jânio Quadros! Até hoje eu não compreendo esse fenômeno Jânio Quadros. O Jânio é aqui de Curitiba. Eu o conheci guri, moleque, na rua Riachuelo. O pai dele tinha uma farmácia na esquina da rua 13 de Maio com a Riachuelo e saiu daqui meio corrido, em 1930, por vender entorpecentes. Foi para São Paulo, se candidatou a vereador e, em seguida, o Jânio fez a mesma carreira. Mas eu até hoje não entendo… 
José Wille – Mas o fato é que a popularidade de Jânio Quadros, quando Ney usou o nome dele na candidatura ao governo, foi fundamental? 
Luiz Carlos Pereira Tourinho – Foi fundamental! Arrastou e ganhou as eleições.  
José Wille – Os anos a seguir, no começo da década de 60, foram bastante tumultuados. O senhor já não estava mais no Exército, mas acompanhou a distância o que estava se passando. Ney Braga aderiu ao Movimento Militar. Mas, antes teve aproximação com João Goulart?  
Luiz Carlos Pereira Tourinho – O problema é o seguinte: ele era governador do estado e não podia adivinhar que viria uma rebordosa como a de 1964. Como ele precisava de verbas e recursos federais – e o presidente era o João Goulart –, ele se aproximou dele. Os jornais da época diziam “Comícios em Pernambuco Pró-Reforma Agrária, reformas de base, nem que seja na marra” – todas declarações de Ney Braga. Então, o que me surpreendeu é que, na madrugada de primeiro de abril de 1964, chegaram a Curitiba dois generais, o Cordeiro de Farias e o Nelson de Melo, pela Estrada da Ribeira. Fecharam-se no Palácio do Governo e, no dia seguinte, o Ney apareceu como chefe da Revolução. Se ele não fizesse isso, estaria deposto, porque a guarnição federal já estava toda rebelada em Curitiba e não teria outra escapatória. Mas ele mudou assim, de uma hora para outra, em condições para salvar sua situação de governador.   
José Wille – Na visão histórica, como se explica a continuidade do domínio que Ney, por tanto tempo, exerceu na história paranaense, partindo da prefeitura, passando pelo governo do estado e alcançando ministérios? 
 Luiz Carlos Pereira Tourinho – Ele é muito hábil, não se pode misturar o comportamento político dele com o comportamento administrativo. Ele realmente fez um excelente governo. Escolheu bons auxiliares, bons engenheiros auxiliares, ele fez um bom governo. Depois, ele ficou no ostracismo nos governos de Costa e Silva e de Garrastazu Médici, que não gostavam dele. Mas, para a sua felicidade, surgiu o presidente Geisel, que era amigo pessoal dele, comandava a região aqui quando ele era governador, e que era da mesma arma de artilharia do Exército. E o Ney é muito hábil nesse relacionamento com superiores, muito hábil nisso… Então, acabou dominando a política do Paraná por mais algum tempo durante o período revolucionário.

 

 

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