De onde veio o “leite quente” do curitibano

 

O professor Hélio Fileno de Freitas Puglielli é um dos grandes nomes da história da imprensa e do ensino de comunicação no Paraná. Foi superintendente do Teatro Guaíra, diretor do Setor de Ciências Humanas da Universidade Federal do Paraná e professor de várias gerações de jornalistas. Nesta entrevista, gravada em 1997, ele fala sobre a origem do sotaque curitibano. Trecho da série de livros “Memória Paranaense”.

 

 

José Wille – O senhor tem uma obra com o título “Para Compreender o Paraná, em que o senhor fala sobre a formação do sotaque curitibano. Qual é a origem desse sotaque?

Hélio Puglielli – Bom, a origem do sotaque, como de outros hábitos que caracterizam o nosso tipo curitibano, decorre, exatamente, da síntese que se fez aqui em Curitiba entre várias etnias. Existem várias explicações para nosso sotaque, mas eu endosso integralmente aquela dada por José Ernesto Ericssen Pereira – colega nosso de imprensa jornalística, no livro chamado “História de Caminhos”: que essa nossa maneira de falar decorre de uma necessidade didática. Quando os emigrantes chegaram aqui, procuraram aprender no dia a dia a língua da nossa pátria, e os que estavam aqui, em seu contato, em seu diálogo com esses emigrantes, falavam as palavras bem silabadas, com todas as sílabas, para que os ouvidos que não estavam familiarizados com as nossas vogais realmente registrassem os sons. E esses imigrantes, por sua vez, ao falar, também adotaram esta linguagem. Nós não falamos muito depressa, como alguns brasileiros de outros estados; a nossa fala é mais ritmada. Além disso, antes mesmos dos estrangeiros chegarem, os paranaenses eram tropeiros no século XVIII; depois, houve um segundo surto de tropeirismo no século XIX. Havia também muito contato com castelhanos, porque os curitibanos iam buscar o gado lá no Rio Grande do Sul, na fronteira com o Uruguai e Argentina. Então, este contato com os países platinos também modelou, um pouco, o nosso linguajar. Finalmente, a síntese com o imigrante fez com que marcássemos bem, silabássemos bem e vocalizássemos bem – falando com todas as vogais, ao contrário da consonantalização que caracteriza outros falares.

 

José Wille – E a comentada timidez do curitibano. Qual é a personalidade do curitibano tradicional?

 Hélio Puglielli – Essa timidez é explicada, não por mim, mas pelo historiador David Carneiro, que escreveu o livro “História Psicológica do Paraná”, em que supõe que o clima psicológico de retraimento advém, provavelmente, da época em que a maior parte dos imigrantes aderiu à Revolução Federalista. Aderiram aos Maragatos, inclusive formaram batalhões para lutar ao lado dos revolucionários – tinha um batalhão italiano, um batalhão polonês… -, mas quem venceu foram os Pica-Paus. A Revolução Federalista malogrou e esses imigrantes foram muito perseguidos. Houve uma espécie de retração política, não quiseram mais dar palpites na vida política do estado, não tomaram partido em função daquela desagradável experiência. Também as oligarquias – os coronéis – dominaram o Paraná, na chamada República Velha, inclusive impondo o voto às pessoas, limitando a sua independência política, apesar da reação dos mais intelectualizados.

 

José Wille – E a autofagia paranaense?

Hélio Puglielli – A autofagia paranaense está presente até os dias de hoje. Podemos vê-la na política cultural desenvolvida por entidades oficiais: o vezo, a meu ver condenável, de privilegiar artistas de fora. Ainda é de se recordar aquele caso, quando fui superintendente do Teatro Guaíra, de 1970 a 1973, para ilustrar esta autofagia – um caso em que o governo do estado traz um ator carioca, ator global, para dirigir o Teatro Guaíra, como se aqui não tivesse ninguém com competência suficiente para dirigi-lo. Toda a classe teatral, na época, insurgiu-se, batalhou, mas não adiantou nada. Então, essa autofagia significa desprestigiar a “prata da casa”, é o vezo que grande parte dos curitibanos tem de não dar valor àqueles que são daqui mesmo, mas quem é de fora pode ser canastrão, medíocre… Existe até uma piada para ilustrar esta autofagia paranaense: alguém foi visitar o inferno e viu uma série de panelões, todos com vários diabos tomando conta e as pessoas querendo sair dos panelões, que estavam fervendo. Mas os diabos as faziam voltar com golpes de garfo. E tinha um panelão em que estava escrito Paraná, de que nenhum diabo tomava conta, porque aquele que queria sair, os que estavam dentro puxavam pela perna – uma caricatura da nossa autofagia.

 

José Wille – O curitibano tradicional parece estar desaparecendo – aquele tradicional curitibano, que existia no linguajar, no sotaque, no comportamento – com a chegada de tanta gente que veio para Curitiba?

Hélio Puglielli – Está em minoria na sua própria cidade e, inclusive, as gerações mais novas estão muito influenciadas pela prosódia que ouvem na televisão. Até por esnobismo e por falta de maturidade, assumem essa forma de falar, que não é característica de nossa cidade nem de nosso estado.

 

 

 

 

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